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A jornada de um tapete para a Alemanha

Um tapete oriental recém-atado que vê num showroom hamburguês traz muitas vezes nas costas uma viagem de seis meses a dois anos. O percurso passa por seis mãos, três países e pelo menos três meios de transporte. Esta página percorre a rota típica de um tapete persa, porque saber a viagem explica muito do valor de uma peça acabada.

#Estação um: oficina ou tecedeiras de aldeia

Foto: Wikimedia Commons

A viagem começa antes da atadura. Um tapete precisa de lã, de fio tingido e de uma encomenda, consoante a oficina, ou da própria família, ou de um titular regional de manufatura, ou de um grossista de Teerão ou Tabriz.

Em localidades de manufatura como Nain, Isfahan ou Tabriz as estruturas são de média dimensão. Uma manufatura mantém entre dez e quarenta teares, dá trabalho a atadoras e aprendizes, e calcula por encomenda.

Nas zonas rurais como Hamadan, no distrito de Heriz ou entre os Qashqai funciona de outra forma. As atadoras trabalham em casa, muitas vezes com um tear por família, e vendem o tapete acabado a um intermediário que percorre a aldeia de duas em duas ou três em três semanas. Um a quatro tapetes por família e por ano.

Para um tapete de salão de 200 × 300 centímetros, o tamanho típico de salão na Europa central, uma família ata entre seis e catorze meses.

#Estação dois: agrupamento no bazar

Foto: Wikimedia Commons

O intermediário leva as peças acabadas ao bazar regional seguinte. Na Pérsia são sobretudo os bazares de Tabriz, Mashhad, Isfahan, Shiraz e Teerão. Cada um destes bazares tem uma ala de tapetes própria, frequentemente com centenas de pequenas lojas em que comerciantes compram e revendem.

O bazar de Tabriz é, desde o século XIII, um nó central para os tapetes entre a Pérsia e a Europa. O conjunto inteiro é Património Mundial da UNESCO desde 2010, e só a ala dos tapetes ocupa vários caravançarais dos séculos XVII a XIX.

O grossista compra aqui muitas vezes em lotes intermédios, ou seja, quantidades de dez ou vinte tapetes, classificados por qualidade e tamanho. Aqui surge pela primeira vez uma lista que mais tarde terá um papel para a alfândega e o seguro em Hamburgo.

#Estação três: Teerão como eixo

Foto: Wikimedia Commons

Dos bazares provinciais a maior parte dos tapetes passa por Teerão. No sul da capital encontram-se as grandes sociedades exportadoras, tradicionalmente em torno do Grande Bazar. Aí volta a fazer-se a triagem, tiram-se fotografias, verifica-se a densidade de nós e prepara-se para a exportação.

A embalagem não é um detalhe menor. Um rolo de tapete é primeiro envolvido em pergaminho ou papel natural e, depois, numa cobertura exterior de juta ou, desde os anos noventa, também de polipropileno grosso. Uma etiqueta com o tamanho, a densidade de nós, a proveniência e um número sequencial vai presa à cobertura. Esse número acompanha o tapete até ao cliente final.

Do exportador em Teerão a mercadoria sai por camião, para oeste, em direção à Turquia, ou por carga aérea a partir do aeroporto Imam Khomeini.

#Estação quatro: transporte para Hamburgo

Foto: Wikimedia Commons

Até aos anos setenta uma grande parte dos tapetes seguia de navio via Bandar Abbas, no golfo Pérsico, contornando a Arábia, atravessando o canal do Suez, o Mediterrâneo e, por Gibraltar, até ao mar do Norte. Seis a dez semanas de viagem marítima, consoante a estação e o tempo de espera.

Com a crise entre o Irão e o Iraque a partir de 1980 essa rota tornou-se insegura. Hoje a maior parte dos tapetes segue por camião de Teerão via Istambul até à Europa central, ou em contentor a partir de portos turcos. Uma quantidade menor segue por carga aérea, sobretudo tapetes de seda caros e encomendas especiais.

Em Hamburgo a mercadoria chega ao porto, em contentor, com carta de porte e declaração aduaneira. O que figura como destino final a Speicherstadt é levado em trajetos curtos por camião, os poucos quilómetros desde a beira do porto até aos armazéns.

#Estação cinco: lavagem e reparação em Hamburgo

Foto: Wikimedia Commons

Antes de entrar à venda, um tapete novo é lavado em Hamburgo. Não é uma simples medida de higiene, é uma intervenção estética. A lavagem remove a última sujidade da atadura, equilibra opticamente os tingimentos e dá ao tapete o brilho suave que os compradores europeus sentem como oriental.

A lavandaria hamburguesa trabalha com água doce da rede de água potável, de dureza média e bem adequada à lã. A isso somam-se detergentes suaves, frequentemente de origem vegetal, e, em algumas casas, um breve tratamento com noz de pisoar. Depois da lavagem o tapete é esticado sobre um pavimento e seca lentamente, muitas vezes durante dias.

As reparações seguem-se de imediato. Atam-se franjas, refazem-se ourelas, fixam-se nós soltos. Uma atadora de reparação experiente faz entre 100 e 300 nós novos por dia. Num tapete de tamanho médio, em danos pequenos, isso significa um a dois dias de trabalho.

#Estação seis: showroom e comprador

Do armazém para o showroom o tapete vai geralmente enrolado e em papel de proteção. No showroom desenrola-se, controla-se, etiqueta-se e apresenta-se sobre uma barra ou num expositor.

Os compradores raramente escolhem a primeira peça que veem. Num showroom bem sortido, tiram-se duas a cinco peças, desenrolam-se, comparam-se e experimentam-se em locais diferentes. Essa última meia hora da viagem, da pilha até ao chão da sala, é a mais curta e, ao mesmo tempo, a mais crítica, porque determina a decisão.

Para o comprador, a viagem raramente fica visível. O que no fim repousa no chão é lã, cor e estrutura de nós. Mas a peça tem seis meses pelas costas, viu três países e, provavelmente, passou por mais mãos do que aquelas que um cliente toca num restaurante de comida rápida durante um ano. Isso faz parte da história de cada autêntico tapete oriental.

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