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Armazém de tapetes na Speicherstadt

Um armazém para tapetes orientais não é um guarda-móveis com tapetes lá dentro. É um tipo de edifício próprio, com lógica própria. Esta página mostra por que motivo os armazéns de Hamburgo foram construídos exatamente para essa função e quais destas características fazem ainda hoje a diferença.

#Clima pelo material

Foto: Wikimedia Commons

Os armazéns da Speicherstadt são feitos de tijolo vermelho assente sobre estacas de carvalho. Não é só tradição hamburguesa, é física da construção. O tijolo absorve a humidade lentamente e liberta-a lentamente. A madeira de carvalho debaixo de água não apodrece, endurece. Ambos juntos resultam num espaço de armazenamento com um clima surpreendentemente constante, sem que tenha sido alguma vez necessária climatização técnica.

Para os tapetes de lã isso é ideal. A lã absorve até 30 por cento do seu próprio peso em humidade sem parecer molhada. Num espaço demasiado seco torna-se quebradiça; num espaço demasiado húmido aparecem manchas de bolor. Os armazéns estabilizam-se em cerca de 50 a 60 por cento de humidade relativa e mantêm-se entre 10 e 18 graus Celsius consoante a estação do ano. É exatamente a faixa em que os tapetes orientais de lã se mantêm estáveis.

Para os tapetes de seda o clima é ainda mais importante. A seda reage ao ar seco com fragilidade e ao ar húmido com perda de brilho. Aqui os armazéns são uma proteção passiva, sem fatura de eletricidade.

#Pé direito para empilhar

Foto: Wikimedia Commons

Quem alguma vez transportou tapetes sabe: enrolam-se, não se dobram. Uma dobra deixa, ao fim de semanas, um vinco que dificilmente se remove. Os armazéns da Speicherstadt têm tetos entre 4 e 5 metros de altura. Isso permite pôr os rolos de tapete em pé, com um apoio ao centro, sem que se deformem pelo próprio peso.

Em armazéns baixos seria necessário empilhar os tapetes na horizontal, com almofadas entre eles. Isso funciona com 5 peças; a partir de 50 torna-se problemático. Os armazéns foram desde o início dimensionados para grandes volumes, porque os sacos de chá e de tabaco tinham exigências semelhantes.

#Guinchos em cada piso

Foto: Wikimedia Commons

Os braços giratórios pretos de ferro fundido que sobressaem das fachadas dos armazéns não são decoração. São guinchos. Foram instalados entre 1885 e 1910, inicialmente manuais, com tambor e cabo, depois com motor elétrico. Um único guincho eleva entre 500 e 1.000 quilos, consoante o modelo e o piso.

Para os tapetes era o único método praticável. Um rolo de um Bidjar ou Heriz pesado pesa entre 30 e 80 quilogramas. Três homens transportam-no por uma escada até ao segundo piso, cinco até ao quarto. Com um guincho, um operário trabalha a alavanca e outro guia o rolo até à janela do piso de destino. Dois minutos por rolo; em quantidades de grosso, nem um fim de semana extra.

A maior parte dos guinchos está hoje fora de serviço, alguns são preservados como monumentos. Em alguns edifícios continuam a funcionar e são usados exatamente para esta finalidade.

#Separação de funções

Foto: Wikimedia Commons

Um armazém nunca teve, nem tem, uma só função. No rés-do-chão estavam os escritórios com secretária, ficheiros e caixa. Aí celebravam-se contratos, emitiam-se cartas de porte e geriam-se apólices de seguro. Atrás, a rampa de carga e a saída para o pátio.

No primeiro piso guardavam-se muitas vezes as peças mais valiosas ou as mais procuradas, as que era preciso mostrar de imediato. Aí sentavam-se também os classificadores, que separavam a mercadoria recebida por família estilística, tamanho e qualidade.

O segundo e o terceiro pisos eram o armazém principal. Longas filas de tapetes enrolados, com etiqueta de um dos lados. Nos pisos superiores, quarto e quinto, fazia-se reparação e lavagem. Água em cima, e não em baixo, porque um eventual dano de água afetaria assim menos mercadoria.

Esta estratificação ainda se lê na maior parte dos armazéns. Quem entra hoje num armazém usado em parte como showroom, em parte como depósito, vê a lógica do período fundador continuar viva.

#Água entre os edifícios

Foto: Wikimedia Commons

A Speicherstadt não é um traçado de ruas, é um traçado de canais. Entre cada bloco corre um Fleet, um braço de água estreito, oscilante com as marés. Nestes canais navegavam até aos anos sessenta as chamadas Schuten, pequenas gabarras planas sem propulsão própria.

As mercadorias eram carregadas da grande doca para a gabarra, puxadas pelo canal até à porta do respetivo armazém e ali içadas com o guincho. A gabarra não precisava de camião, o camião não precisava de grua portuária. A logística era, para os padrões hamburgueses, surpreendentemente compacta.

Para os tapetes isso significava, na prática: uma remessa de mercadoria de Esmirna podia ser descarregada às nove da manhã no cais principal e estar às onze horas no terceiro piso do armazém, sem que o fardo tivesse tocado na rua. Hoje já não circulam gabarras nos canais, mas a arquitetura recorda o quão eficiente era essa logística.

#O que isso significa hoje na prática

Um tapete que repousa num armazém da Speicherstadt continua hoje a beneficiar da física da construção do século XIX. Clima estável, tetos altos para rolos colocados na vertical, paredes espessas como proteção contra incêndio e furto e a atmosfera tranquila de um edifício que não compete com utilização residencial.

Para os compradores raramente é algo diretamente visível, mas sente-se no material. Um tapete corretamente armazenado durante muito tempo não cheira a cave, não se quebra ao desenrolar e mantém a intensidade da cor, porque nem a luz solar direta nem o ar do aquecimento lhe chegam.

Não é uma vantagem que se venda a frio numa ficha de produto online. Mas é uma das razões pelas quais a armazenagem hamburguesa continua a ter peso no setor.

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